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Ficha Técnica: Concerto Para Lá do Tempo Realização: João Tocha Produção: Digital Azul Cliente: RTP 2
Uma catedral real, imponente e sobranceira às planícies alentejanas de Castro verde. Silêncio absoluto. Centenas de pessoas rendidas à solenidade do momento. Cadeiras de design em vez de bancos corridos. Plástico transparente concebido por Phillip Stark em vez de madeira escurecida pelo uso e pelo tempo. E uma peça musical escrita a pensar no silêncio. E esse era o principal desafio do nosso trabalho: captar os sons e as imagens do silêncio.
Imagem das oito câmaras num momento da gravação
O mesmo momento da gravação, já misturado com imagem captada pela câmara 5
A peça "Rothko Chapel", de Morton Feldman é para Paolo Pinamonti, o director artístico do festival, uma obra emblemática do "Terras sem Sombra". E a arquitetura e o interior da Basílica Real de Castro Verde, aquando da primeira visita que fez ao templo fizeram-no logo pensar na peça e no compositor. Considerado um dos mais importantes compositores da segunda metade do século XX, Feldman compôs "Rothko Chappel" para a inauguração, em 1971, desse espaço laico e ecuménico situado em Houston, EUA. Despojada, apenas com 14 telas monocromáticas de Rothko nas paredes, a Rothko Chapel foi pensada para ser um local de silêncio e contemplação que apelaria à espiritualidade. Feldman capta essa dimensão do silêncio e do murmúrio e transfere-a para a obra. É uma peça para viola, celesta, percussão e coro, em que o coro só faz vocalizações e os instrumentos paradoxalmente tentam captar a quietude em que a vivência da espiritualidade tende a mergulhar. Esse era, aliás, um dos maiores desafios desta produção: captar o caráter contemplativo da obra, e transpô-la numa linguagem televisiva adequada. As pessoas que vão entrando na Basílica parecem antecipar a obra e guardam silêncio. São centenas e ao contrário do que tem acontecido noutros sítios onde tem havido actuações do festival, sussurros é o máximo que se ouve. As oito câmaras HD estão a postos para acompanhar o concerto. Na régie, a tensão aumenta, com o realizador muito ciente das limitações de espaço que tem na captação de imagens e de som.
Os vários planos das 8 câmaras em outro momento do concerto
A câmara 7 em grande plano do violino depois da mistura
Os quarenta elementos do coro de Verona ocupam agora toda a largura da Basílica na zona do altar. Estão em várias filas, vestidos a preceito para o concerto. O momento contrasta em tudo com o ambiente descontraído do jantar do dia anterior. O grupo de cantares alentejanos "Os Ganhões de Castro Verde" tinha-se juntado ao coro mais clássico e tinham feito uma desgarrada durante a refeição. Na Basílica, a disposição do coro coloca alguns desafios técnicos. Há elementos na sombra e a disposição dos instrumentos faz com que a celesta e a percussão também estejam em zonas de sombra. A dificuldade está na falta de espaço. Ao ocuparem toda a largura da Basílica é impossível obter planos laterais. Também a captação de som luta com a falta de pontos de apoio para os microfones. Foram conclusões tiradas no dia anterior, aquando do ensaio geral. E que foram resolvidas, na medida daquilo que o espaço permitia mas sem comprometer em nada o resultado final. Ainda assim, a Basílica Real de Castro Verde acolhe oito câmaras HD, das quais uma em grua e outra em charriot, seis microfones, dois deles em estéreo, vários metros de cabos e cinco kits de iluminação, estrategicamente colocados de forma a criarem uma ambiência intimista. O objectivo é fazer uma realização multicâmara em que os detalhes que cada uma das câmaras capte tenham uma função narrativa; fazer uma captação de som neutra, o mais límpida e cristalina possível, num espaço reduzido, e ter uma iluminação intimista. A realização televisiva do concerto pretende-se por um lado fluida e imperceptível, no sentido de não influenciar uma possível percepção de espiritualidade do concerto; por outro lado, deverá transmitir a grandeza arquitetónica e a serenidade de um espaço de culto em que o altar-mor é revestido a talha dourada e as paredes laterais contam a história da Batalha de Ourique em painéis de azulejos do século XVIII. Começa o concerto. A percussão primeiro, depois a viola em sons apenas sussurrados. Para o técnico de som Ivan Sanches é um momento de alívio. A captação multipistas está a decorrer sem sobressaltos. Os murmúrios da peça estão a ser captados e os microfones estão fora de campo. A disposição estudada durante os ensaios está inclusivé a captar a espacialidade da Basílica e a reverberação natural de um espaço que tem uma excelente acústica. Na régie começa o trabalho de mistura das oito câmaras, muito subtil, lenta e sem mudanças bruscas de plano. Com oito câmaras, a mistura torna-se minuciosa, já que os planos de transição são sempre momentos críticos de uma realização multicâmaras. O momento é irrepetível e se não ficarem perfeitos podem comprometer a pós-produção. A iluminação ajustada às necessidades televisivas durante o ensaio geral desempenha um papel importante na ambiência intimista que se pretende. E funciona bem. Os planos da câmara colocada em plano contra-picado, situada aos pés do maestro, com a falsa abóbada subtilmente iluminada como pano de fundo foram comentados por todos. Além de contribuir para a noção de espacialidadee da grandeza da basílica revelava toda a minúcia das instruções transmitidas pelo maestro aos executantes; da mesma forma que as duas câmaras centradas nos músicos e nos instrumentos e as outras duas apontadas ao coro conseguiram transmitir a excelência da execução e provocar no telespectador as mesmas sensações que o público tinha tido, segundo diversos relatos que chegaram à Digital Azul depois da transmissão integral do concerto na RTP2. Sucedeu o mesmo com os planos da grua e do chariot que se centraram em elementos espaciais que fizeram a ligação entre os músicos e o coro e o rico património arquitetónico da Basílica e que transportaram quem viu para a bela Basílica de Castro Verde. Durante o concerto, ninguém praguejou na régie e não foi só por respeito ao local de culto. No final, havia só uma pessoa extremamente atarefada. O responsável pelo Data Management, Pedro Motta da Silva, encarregue de gerir e catalogar os milhares de ficheiros gerados por oito câmaras HD, que no total prefaziam 1,5 terabytes de informação. Esta é uma parte crucial em todas as produções audiovisuais que tenham alguma envergadura. Qualquer ficheiro que se perca perde-se irremediavelmente, compromete a pós-produção e a integridade do projeto. Esta é uma tarefa, o Data Management, que tem de ser feita on location e com toda a minúcia. É aí que por entre câmaras, tripés, cabos, gruas, microfones e toda a panóplia de equipamento que os discos podem ficar danificados e que os ficheiros correm maior perigo, se não houver um apertado sistema de controle e catalogação. Houve, como há sempre nas produções da Digital Azul. Quando as portas da basílica se fecharam, a equipa estava cansada, acelerada pelo stress mas satisfeita. Diz quem lá esteve que guarda saudade desses dias de intenso calor. Meteorológico e humano.
Texto: Isabel Trindade
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